Lab Pratico: Acao Popular e Cidadania
Exercicio pratico de propositura de acao popular para anular ato lesivo ao patrimonio publico, com fundamentacao na Lei 4.717/65.
Objetivo do Lab#
Este lab pratico guia voce na elaboracao de uma acao popular, um dos mais importantes instrumentos de controle cidadao da administracao publica no direito brasileiro. Prevista no art. 5o, LXXIII da Constituicao Federal e regulamentada pela Lei 4.717/65 (Lei da Acao Popular — LAP), a acao popular permite que qualquer cidadao proponha acao judicial visando anular atos lesivos ao patrimonio publico, a moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimonio historico e cultural.
Conforme ensina Pedro Lenza, a acao popular e uma manifestacao direta da soberania popular e do principio democratico, representando um dos pilares do controle social da administracao publica. Gilmar Mendes, em seu Curso de Direito Constitucional, destaca que a acao popular e instrumento de participacao politica do cidadao na fiscalizacao dos atos do poder publico, complementando os mecanismos tradicionais de controle exercidos pelo Ministerio Publico e pelos Tribunais de Contas.
O Caso Pratico#
O Municipio de Vale Verde (SP), por meio de sua Prefeitura, celebrou contrato no valor de R$ 5 milhoes para a reforma completa da Praca Central da cidade. A contratacao foi realizada sem processo licitatorio, com fundamento em dispensa por emergencia. Ocorre que: (a) a suposta emergencia nunca foi comprovada — nao houve evento natural, calamidade ou situacao que justificasse a urgencia; (b) ja se passaram 6 meses desde a assinatura do contrato e nenhuma obra foi iniciada; (c) a empresa contratada, Construtora Rapida Ltda., foi constituida apenas 3 meses antes da contratacao e nao possui historico de obras publicas; (d) o proprietario da construtora e cunhado do Secretario de Obras do municipio.
Pedro Henrique Costa, cidadao e eleitor do municipio, indignado com a situacao, procura seu escritorio para ajuizar uma acao popular.
Passo 1: Verificacao da Legitimidade e dos Requisitos#
Legitimidade Ativa Especifica#
A acao popular possui legitimidade ativa restrita ao cidadao, entendido como a pessoa fisica no gozo dos direitos politicos:
- Requisito essencial: ser cidadao, ou seja, eleitor com titulo de eleitor regular (art. 1o, paragrafo 3o da LAP)
- Prova da cidadania: copia do titulo de eleitor ou certidao de quitacao eleitoral. Esse e o unico documento exigido para comprovar a legitimidade
- Quem nao pode propor: pessoas juridicas, estrangeiros nao naturalizados, menores de 16 anos e quem tiver direitos politicos suspensos ou perdidos
- Pedro deve apresentar copia de seu titulo de eleitor valido com o municipio de Vale Verde como domicilio eleitoral (embora ha discussao doutrinaria sobre a necessidade de vinculo com o municipio)
Legitimidade Passiva Ampla#
A acao popular tem litisconsorcio passivo necessario entre:
- O ente publico: Municipio de Vale Verde (que pode optar por defender o ato ou migrar para o polo ativo conforme art. 6o, paragrafo 3o da LAP)
- O agente publico responsavel: o Prefeito que autorizou a dispensa e o Secretario de Obras que conduziu a contratacao
- O terceiro beneficiado: a Construtora Rapida Ltda. e seu proprietario
- Demais participantes: qualquer pessoa que tenha contribuido para o ato impugnado
Elementos Constitutivos da Acao Popular#
A doutrina identifica tres elementos que devem ser demonstrados:
- Ato lesivo: a contratacao sem licitacao por dispensa infundada e a ausencia de execucao do objeto
- Ilegalidade ou ilegitimidade: vicio na dispensa de licitacao por ausencia dos requisitos legais
- Lesividade ao interesse publico: prejuizo financeiro ao erario pelo pagamento sem contraprestacao, alem de ofensa a moralidade administrativa pelo favorecimento de empresa ligada ao gestor
Passo 2: Fundamentacao Juridica Detalhada#
Ilegalidade da Dispensa de Licitacao#
A contratacao direta por dispensa de licitacao em razao de emergencia exige o preenchimento cumulativo de requisitos rigorosos. Apos a Nova Lei de Licitacoes (Lei 14.133/2021), a dispensa por emergencia esta prevista no art. 75, VIII, que exige:
- Situacao de emergencia real e comprovada, nao meramente alegada. A emergencia deve ser decorrente de fatos imprevistos ou imprevistiveis
- Obras ou servicos que nao admitam demora, cuja paralisacao possa causar dano maior ao interesse publico
- Prazo maximo de 1 ano para a contratacao emergencial
- A emergencia nao pode ser fabricada pela propria administracao por sua inercia ou falta de planejamento (emergencia fabricada)
No caso, nenhum desses requisitos foi atendido. A reforma de uma praca publica e atividade ordinaria e previsivel, que nao justifica contratacao emergencial.
Vicios Previstos na Lei da Acao Popular#
O art. 2o da Lei 4.717/65 lista os atos nulos, equiparando a nulidade aqueles que contenham:
- Incompetencia: se o agente que autorizou a dispensa nao tinha competencia para tanto
- Vicio de forma: a ausencia de processo licitatorio sem justificativa legal valida configura vicio de forma
- Ilegalidade do objeto: contratacao que viola normas de licitacao
- Inexistencia de motivos: os motivos alegados para a dispensa (emergencia) sao inexistentes
- Desvio de finalidade: indicio de favorecimento pessoal dado o parentesco entre o secretario e o proprietario da empresa
Improbidade Administrativa e Conexoes#
Embora a acao popular nao se confunda com a acao de improbidade administrativa (Lei 8.429/92), os mesmos fatos podem configurar improbidade por:
- Art. 10 da LIA: atos que causam lesao ao erario, incluindo liberar verba publica sem observancia de formalidades legais
- Art. 11 da LIA: atos que atentam contra principios da administracao publica
O advogado deve comunicar os fatos ao Ministerio Publico para eventual propositura paralela de acao de improbidade.
Responsabilizacao pela Lei Anticorrupcao#
A Lei 12.846/2013 (Lei Anticorrupcao) tambem pode ser aplicavel a Construtora Rapida Ltda., que pode ser responsabilizada objetivamente por atos lesivos a administracao publica, incluindo frustrar ou fraudar o carater competitivo de procedimento licitatorio (art. 5o, IV).
Passo 3: Estrutura Completa da Peca#
Enderecamento#
- Competencia: Vara da Fazenda Publica da Comarca de Vale Verde (art. 5o da LAP)
- Se nao houver vara especializada, a acao sera distribuida a vara civel competente
Qualificacao das Partes#
- Autor popular: Pedro Henrique Costa, cidadao brasileiro, com qualificacao completa, comprovando a condicao de eleitor
- Reus: Municipio de Vale Verde, Prefeito Municipal (qualificado), Secretario de Obras (qualificado), Construtora Rapida Ltda. (com CNPJ e endereco) e seu proprietario (qualificado)
Narrativa Fatica Detalhada#
A exposicao dos fatos deve ser cronologica e fundamentada em documentos:
- Data e circunstancias da contratacao
- Ausencia de processo licitatorio e justificativa apresentada
- Decurso de 6 meses sem inicio das obras
- Dados sobre a empresa contratada (constituicao recente, ausencia de historico)
- Vinculo de parentesco entre o secretario e o empresario
- Fonte das informacoes (diario oficial, portal de transparencia, etc.)
Pedidos Completos#
- Concessao de liminar para suspender os efeitos do contrato e bloquear eventuais pagamentos pendentes
- Citacao de todos os reus para responder a acao
- Intimacao do Ministerio Publico para acompanhar como custos legis (art. 6o, paragrafo 4o da LAP)
- Anulacao do contrato celebrado entre o Municipio e a Construtora Rapida Ltda.
- Condenacao solidaria dos reus ao ressarcimento integral dos valores pagos, com correcao monetaria e juros legais
- Condenacao nas demais cominacoes legais aplicaveis
Passo 4: Peculiaridades Processuais da Acao Popular#
Isencao de Custas#
O art. 5o, LXXIII da CF garante que o autor popular e isento de custas judiciais e do onus da sucumbencia, salvo comprovada ma-fe. Essa garantia e essencial para incentivar o controle cidadao sem o temor de repercussoes financeiras.
Papel do Ministerio Publico#
O MP atua como fiscal da lei (custos legis) na acao popular. Conforme o art. 6o, paragrafo 4o da LAP, o MP pode dar prosseguimento a acao se o autor desistir ou der motivo a absolvicao de instancia. Essa previsao garante que interesses publicos nao sejam abandonados por desistencia do cidadao.
Possibilidade de Migracao do Ente Publico#
O art. 6o, paragrafo 3o da LAP permite que a pessoa juridica de direito publico (Municipio) abandone o polo passivo e passe a integrar o polo ativo, auxiliando o autor popular. Essa possibilidade e estrategicamente relevante quando ha mudanca de gestao municipal.
Eficacia da Sentenca#
A sentenca na acao popular tem eficacia erga omnes (art. 18 da LAP), ou seja, seus efeitos beneficiam toda a coletividade. Se a acao for julgada improcedente por insuficiencia de provas, qualquer cidadao pode propor nova acao com base em novas evidencias.
Execucao da Sentenca#
Se os reus forem condenados ao ressarcimento e nao cumprirem voluntariamente, o art. 16 da LAP permite que qualquer cidadao, o Ministerio Publico ou o proprio ente lesado promova a execucao da sentenca.
Provas Essenciais#
O autor popular deve instruir a acao com documentos que demonstrem a lesividade e a ilegalidade:
- Copia do contrato firmado ou extrato do portal de transparencia
- Publicacao da dispensa de licitacao no Diario Oficial
- Consulta ao CNPJ da empresa contratada (data de constituicao, quadro societario)
- Evidencias do vinculo de parentesco entre o secretario e o empresario
- Registro fotografico demonstrando que as obras nao foram iniciadas
- Atas de sessao da Camara Municipal ou reportagens que documentem a situacao
Conforme o art. 7o, I, "b" da LAP, o juiz pode requisitar documentos aos reus que estejam em poder da administracao publica.
Exercicio Proposto#
Redija a acao popular completa para o caso de Pedro Henrique Costa contra o Municipio de Vale Verde. Atente-se a todos os requisitos da Lei 4.717/65, incluindo a demonstracao da legitimidade ativa, a fundamentacao da ilegalidade e da lesividade, e a formulacao dos pedidos. Utilize a IA do Portal para verificar a completude e a consistencia da sua peca.
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Perguntas Frequentes#
Qualquer pessoa pode propor acao popular?#
Nao qualquer pessoa, mas qualquer cidadao — ou seja, pessoa fisica no gozo dos direitos politicos, comprovados pela apresentacao do titulo de eleitor. Pessoas juridicas, estrangeiros nao naturalizados e menores de 16 anos nao tem legitimidade para propor acao popular.
A acao popular pode ser proposta contra atos do Poder Legislativo ou Judiciario?#
Sim. A acao popular pode ser proposta contra atos lesivos praticados por qualquer agente publico, independentemente do Poder a que pertenca. Atos administrativos do Legislativo (como contratacoes pela Camara Municipal) e do Judiciario (como licitacoes de tribunais) podem ser impugnados por acao popular.
Qual a diferenca entre acao popular e acao civil publica?#
A principal diferenca esta na legitimidade ativa. A acao popular e proposta pelo cidadao individualmente, enquanto a acao civil publica e proposta pelo Ministerio Publico, Defensoria Publica, entes federativos ou associacoes. Alem disso, a acao popular visa especificamente a anulacao de atos lesivos, enquanto a acao civil publica tem objeto mais amplo.
O autor popular pode desistir da acao?#
Sim, mas o art. 9o da LAP garante que, em caso de desistencia, o Ministerio Publico ou qualquer cidadao pode dar prosseguimento a acao. Isso impede que pressoes sobre o autor levem ao abandono da causa em prejuizo do interesse publico.